Julho - 2026 - Edição 313

Colonia Penal

Com uma linguagem direta e sem rodeios, Assim na Terra Como Embaixo da Terra (Editora Record) prende a atenção do leitor logo nas primeiras páginas. Este eletrizante e premiado romance de Ana Paula Maia narra o cotidiano de uma colônia penal isolada em vias de desativação. Construída em um terreno com histórico tenebroso de tortura de escravos e assassinato, a instituição foi criada para ser um modelo de detenção do qual preso algum jamais fugiria. Com o tempo, o objetivo inicial de socializar os detentos para reinserção na vida em comunidade foi sendo deturpado. Na prática, a colônia se transformou em algo muito diferente: uma espécie de campo de extermínio. Nos últimos dias de funcionamento, o clima no local, que conta então com poucos apenados, é de aparente calma. No entanto, pouco a pouco os horrores vividos ali vão sendo revelados. O agente superior Melquíades é a maior autoridade por trás daqueles muros, e também o algoz dos presos. Nas noites de lua cheia, o chefe libera alguns condenados da tornozeleira e ordena que corram. Ele, então, inicia um sinistro jogo, caçando os homens com seu rifle como se fossem animais selvagens, apenas por satisfação pessoal. O livro surge em um momento de discussão sobre a situação do sistema penitenciário no Brasil, com a ascensão de um discurso extremista e violento oposto às políticas de defesa dos direitos humanos.... Leia mais

Origens

Ernesto Xavier demonstra, Na Trilha dos Orixás (Editora Goia), que as tradições de matriz africana preservam uma vitalidade rara: enraizadas na ancestralidade, permanecem intensamente ligadas aos desafios do presente, indo muito além do sagrado e reafirmando sua resistência frente às tentativas de apagamento. A partir da mitologia dos orixás, o autor traz reflexões que perpassam nossa vida cotidiana e estão na ordem do dia para a construção de um mundo mais justo: amor, poder feminino, masculinidades, manutenção da saúde física e mental e dimensões diversas das experiências de perda e luto. Entre os muitos méritos do livro está a defesa de que as culturas tradicionais são vivas, potentes, sofisticadas, recusando as armadilhas que as empurram para o campo do que é atrasado ou pitoresco. Assim, o autor ilumina escolhas cotidianas, inspira modos de convivência e oferece caminhos tanto para a dimensão íntima quanto social de nossa vida. Um livro essencial para quem deseja conhecer o tema, mas também um grato recorte para os já iniciados. “Este livro deixa claro que o culto aos orixás é um patrimônio filosófico, artístico, espiritual, que não deve nada a qualquer grande sistema de pensamento.” Luiz Antônio Simas.... Leia mais

Mosaico

Pequenos Sigilos (Ação Editora) marca a entrada de Chico Chico no universo literário e promete revelar novas facetas de sua alma criativa, já admirada pelo público. O livro reúne textos escritos pelo autor ao longo dos últimos anos, transitando entre poemas, contos, minicontos e pensatas. A seleção apresenta um mosaico entre o onírico e o cotidiano, e convida o leitor a percorrer as margens da inquietação, da beleza e da dúvida que permeiam sua criação. Os textos exploram temas universais, como amor, saudade, tempo, infância e a relação do ser humano com o silêncio e o mundo. Há pequenos sigilos que podem ser um perigo de melodia nos respiros da noite. Grandes coisas indecifráveis em si, mas com um azul bem definido e uma boa quantidade de tempo. Não por isso tão importantes assim, contudo ainda maiores que as terças e quartas e quintas e sextas. Se forem sábados, sabe-se lá, desmoronam no início. O menino vê outra maneira de viver sempre com as dúvidas, ao passo que os ventos perseguem caminhos e não se esquecem dos desejos. “São muitas as faces desse poeta, e esse talvez seja uma de suas principais qualidades. Esperamos que Chico Chico continue assim, à procura das descobertas de sua subjetividade, mas também permitindo a musica de suas muitas vozes” – Geraldo Carneiro, membro da ABL na apresentação de Pequenos sigilos.... Leia mais





Caleidoscópio

Com reviravoltas, vários núcleos dramáticos e inúmeros personagens, Filhos da mãe é um verdadeiro caleidoscópio de tipos e perfis. Todos eles – como nós – criaturas da pátria amada, Brasil. Filhos da Mãe Gentil (Editora Intrinseca) tem mais de um protagonista. Um deles, no entanto, é seu fio condutor. Repórter veterano, Roberval Pompermayer já viu dias melhores. Desempregado, vivendo de frilas, ele só quer vender um terreno que herdou para deixar os filhos ajeitados. Mas, numa barganha faustiana, acaba assumindo um desafio insólito: ajudar Wozinton Polozola, filho de um poderoso bicheiro, a se tornar uma celebridade. No caminho, o jornalista assume a comunicação da grande sensação do mercado financeiro – uma startup de inteligência artificial –, negocia com lobistas mercenários e políticos venais, é ameaçado por capangas, descobre o mundo da aviação privada e se apaixona perdidamente por Flordenira, jovem e talentosa executiva. Tragado por um redemoinho de eventos improváveis, a um só tempo desavisado e determinado, Roberval reencontra o seu lugar e, lança em riste, se dedica à proteção da mulher amada. A odisseia do nosso anti-herói se mistura às outras tramas do folhetim, produzindo uma narrativa que engaja, diverte e, tal como o noticiário nacional, escapa de qualquer previsão.... Leia mais

Escuta

Cíntia Chagas e Manuela D’Ávila unem suas vozes para falar das dores vivenciados por mulheres e da potência que nasce quando estas se reconhecem umas nas outras, no livro A Dor Comum (Editora Planeta). Com coragem e sensibilidade, elas revelam histórias dolorosas, mas também inspiradoras, porque cada página é um convite à transformação. Aqui, não há espaço para indiferença: você vai se emocionar, vai se indignar e, sobretudo, vai se sentir parte de uma luta coletiva. Este livro nos mostra que a força da união é maior do que a da divisão. Juntas podemos reinventar o mundo. Uma leitura urgente, necessária e impossível de esquecer. “Cíntia Chagas e Manuela d’Ávila são mulheres poderosas, independentes e com visões de mundo distintas. Aceitaram fazer o que hoje, infelizmente, se tornou raro: ouvir o outro. Em tempos barulhentos, em que as redes sociais são os caminhos para confirmar convicções, as duas ouviram e aprenderam uma com a outra. Este livro nos mostra que cordialidade, civilidade e escuta fazem de todos nós pessoas melhores. Viva Cintia. Viva Manuela.” – Julia Duailibi – jornalista.

Utopias

Obra emblemática de um dos escritores mais apaixonantes da literatura brasileira, publicada originalmente em 1990. Último romance de Caio Fernando Abreu, Onde Andará Dulce Veiga? (Companhia das Letras) se passa em uma São Paulo notívaga e decadente, assombrada pelos fantasmas da ditadura e pelas utopias que não se realizaram. Nesse cenário que mistura cinema, música e a ambição de se tornar alguém célebre, o protagonista – um jornalista desalentado – parte em busca de uma cantora que fez sucesso nos anos 1960, mas cujo paradeiro é desconhecido. O livro, que foi adaptado para o cinema, combina investigação policial e mergulho psicológico, ao explorar a solidão, o desejo e os sonhos abandonados pelo caminho. Para o escritor Paulo Scott, autor do posfácio desta edição, o romance trata não apenas da busca existencial do protagonista, mas também dos vínculos entre as pessoas deslocadas de suas casas, em locais que permitem “novas chances de (desconstrução e) reconstrução de si mesmas”. Do autor, a Companhia das Letras publicou Contos Completos (2018), Morangos Mofados (2019), Limite Branco (2022), Triângulo das Águas (2023) e O Ovo Apunhalado (2025). Morreu em Porto Alegre, em 1996.