Janeiro - 2026 - Edição 310
Tradição oral
Resultado de décadas de pesquisa na África, Ewé (Companhia das Letras) reúne 447 fórmulas iorubás medicinais e rituais, registradas por Pierre Fatumbi Verger. Um clássico que revela a força da tradição oral e a herança cultural que une Brasil e África, recuperado para esta nova edição. Em 1952, em Queto, hoje na República do Benim, Pierre Verger foi iniciado como babalaô, recebendo o nome de Fatumbi, “renascido pela graça de Ifá”. Aprendeu então os segredos da medicina iorubá, transmitidos a ele oralmente por seus mestres babalaôs. Ao longo dos anos seguintes, coletou milhares de receitas, anotando o uso das plantas iorubás e as encantações, tão essenciais quanto os outros ingredientes. Ewé apresenta 447 dessas fórmulas na íntegra, em iorubá e português, divididas em: receitas de uso medicinal; receitas relativas à gravidez e ao nascimento; trabalhos relativos às divindades, de uso benéfico, de uso maléfico e de proteção contra trabalhos maléficos. O autor oferece ainda preciosas informações de referência, como glossários com a nomenclatura das plantas em iorubá e sua classificação científica, e comenta a relação entre os nomes dados às plantas e a ação esperada delas, uma associação poética recriada para transmitir os conhecimentos que há séculos passam de geração em geração, oralmente. Com Ewé, Pierre Fatumbi Verger lança luz sobre uma cultura baseada na oralidade e diversa daquelas apoiadas na palavra escrita.
Tributo
Ambientada nos anos 1960, A Última Canção (Editora Arqueiro) de Lucinda Riley é uma cativante e devastadora história de amor e perda. Resgatada e renovada pelo filho de Lucinda Riley, Harry Whittaker, ela agora pode ser descoberta por novos leitores. “Embora tenha nascido em Lisburn, minha mãe sempre sentiu que West Cork era seu verdadeiro lar... A Última Canção é um tributo a West Cork. Desde o início, o texto carrega as marcas do estilo de Lucinda. Você vai descobrir amores passionais, perdas trágicas e um segredo devastador do passado.” – Harry Whittaker. Sorcha O’Donovan sonha com uma vida emocionante bem longe do litoral de West Cork, na Irlanda, o lugar onde cresceu. Quando conhece Con Daly, o belo músico do vilarejo, ela sabe que tudo está prestes a mudar. Já em Londres, Con faz sucesso com a banda The Fishermen e parece prestes a desfrutar um futuro maravilhoso com Sorcha. Mas o lado sombrio da fama faz a vida deles virar de cabeça para baixo. O cantor começa a receber ameaças, e segredos do passado podem arruinar tudo que eles construíram. Vinte anos depois, a banda concorda em se reunir para um grande show beneficente. Mas Con Daly, galã e representante de toda uma geração, está desaparecido há mais de uma década. Somente uma pessoa é capaz de descobrir o que aconteceu. Alguém que conhecia a vida, os amores e a carreira daqueles que participaram do sucesso dos Fishermen...
Imigrantes
O Arroz de Palma (Editora Record) de Francisco Azevedo fala de família. Antonio, já com 88 anos, prepara um grande almoço para comemorar os cem anos do casamento de seus pais. Os irmãos, já octogenários como ele, e todos os seus descendentes comparecem à celebração. O enredo ocorre ao personagem em forma de lembranças de família. Em clima de realismo fantástico, o fio condutor é o arroz jogado no casamento dos patriarcas, quando a trama tem início, no dia 11 de julho de 1908, em Viana do Castelo, Norte de Portugal, no casamento de José Custódio e Maria Romana. Terminada a cerimônia, o arroz que desaba sobre os noivos é torrencial, chuva branca que não para. O cortejo segue em festa pelo vilarejo, mas a romântica Palma permanece ali, feliz com todo aquele arroz espalhado pelo adro da igreja. Muito pobre, ela havia decidido, com entusiasmo, que aquele seria o seu presente de casamento para o irmão e a cunhada. Infelizmente, o arroz, dado com tanto amor, resulta na primeira briga do casal. A partir daí, por quatro gerações, todas as disputas, os conflitos, os dramas e as alegrias da família giram em torno do arroz. O Arroz de Palma fala das raízes do imigrante lusitano. Da gente simples, honesta e trabalhadora que veio em busca de uma vida melhor em terras brasileiras, cheia de sonhos e projetos e que, transplantada neste solo, com muita luta e espírito de superação, aprofundou raízes, cresceu e deu frutos.
Pacto de sobrevivência
Numa noite chuvosa de fim de verão, um jovem imigrante está prestes a se jogar de uma ponte na Felicidade do Leste, uma cidadezinha esquecida no interior de Connecticut. Do outro lado do rio, porém, uma voz o impede – é Grazina, uma viúva lutando contra o avanço da demência. Essa conexão improvável entre duas pessoas à deriva dá início a uma relação que, ao longo de um ano, se transforma em um frágil pacto de sobrevivência mútua. O Imperador da Felicidade (Editora Rocco) de Ocean Vuong, é uma história sobre aqueles que vivem à margem da sociedade – jovens, velhos, imigrantes, pobres, viciados –, descartados pelo sonho americano e relegados aos bastidores do progresso. Ocean Vuong transforma esses esquecidos em protagonistas de beleza pungente, capturando momentos de conexão humana em meio ao colapso econômico, à rotina esmagadora do trabalho, às minúsculas perdas diárias e à insistência em, apesar de tudo, continuar vivendo. Com sua prosa precisa e lírica, Vuong revela como a dor compartilhada pode abrir espaço para ternura e pertencimento, mesmo entre aqueles que o mundo insiste em esquecer. Aqui, não há idealizações, apenas a verdade crua e bela do que significa seguir em frente. Uma história sobre segundas chances – não como milagres, mas como mínimos atos de coragem cotidiana.
Testamento literário
Diogo Mainardi encara a arte, a morte e a própria decadência em um livro implacável. Entre ruínas venezianas e pinturas de Tiziano, ele transforma o fracasso – estético, existencial e humano – em linguagem, e a linguagem em rendição. Com ironia e um desespero quase sublime, a graphic novel de não ficção Meus Mortos (Editora Galera) é o retrato impiedoso de um tempo sem transcendência. Diogo Mainardi perambula por Veneza, seguindo o rastro de Tiziano, acompanhado por seu cachorro e fotografado por seu filho Nico. De peste em peste, de morte em morte, ele reflete pateticamente sobre seu fracasso individual e – mais ainda – sobre o fracasso coletivo de seu tempo. Incapaz de qualquer forma de transcendência, apropria-se da arte desesperada e sublime do maior pintor da História, que retratou melhor do que ninguém nossos fracassos individuais e coletivos – assim como o sexo, o poder, a bestialidade humana, a brutalidade dos deuses e o fim dos tempos. Durante esses itinerários venezianos, a linguagem do grande pintor esmaga a do pequeno escritor. As imagens asfixiam as palavras. Mas não se trata apenas de uma supremacia estética. A pincelada de Tiziano confere uma forma e uma cor – e, em certos momentos, até mesmo um arremedo de sentido – à pequeneza do escritor. Em seu testamento literário, Diogo Mainardi despe-se completamente e, com as nádegas de fora, ostenta sua derrota
Desastre iminente
Em Chernobyl em Guerra: A luta dos ucranianos para evitar um novo desastre (Editora Manole), o renomado historiador Serhii Plokhy revela uma nova face da tragédia que mudou para sempre a relação da humanidade com a energia e com o poder. Em fevereiro de 2022, quando as tropas russas invadiram a Ucrânia, o mundo voltou a ouvir o nome Chernobyl. O que parecia apenas uma lembrança distante do desastre de 1986 tornou-se novamente palco de tensão, medo e resistência. Durante mais de um mês, engenheiros e técnicos ucranianos foram mantidos como reféns dentro da usina, trabalhando sob extrema pressão para evitar uma nova explosão nuclear, enquanto o exército inimigo ocupava as instalações, e as linhas de comunicação eram cortadas. A partir de depoimentos diretos, documentos inéditos e análise minuciosa, Plokhy narra com precisão histórica e sensibilidade humana os 35 dias em que o destino da Europa voltou a depender da estabilidade de um reator. Entre o heroísmo silencioso e o risco absoluto, esta história mostra o que acontece quando a guerra invade o coração da tecnologia, e quando a verdade, a ciência e a coragem se tornam as únicas defesas possíveis. Com sua escrita envolvente e rigor intelectual, Serhii Plokhy constrói um relato poderoso sobre o impacto da guerra na era nuclear, convidando o leitor a refletir sobre as fragilidades do mundo moderno.