Maio - 2026 - Edição 312

Angelo Oswaldo, Cesario Mello Franco, Antônio Torres com os organizadores da coletânea Arno Wehling e Rogério F. Tavares, na Sala José de Alencar (ABL).

Nos 120 anos de Afonso Arinos: obra coletiva revisita o legado de um intelectual plural

A celebração dos 120 anos de nascimento de Afonso Arinos de Melo Franco (1905-1990) mobilizou a cena intelectual brasileira em torno de uma iniciativa que combina resgate histórico, análise crítica e homenagem. Organizado pelo historiador Arno Wehling e pelo jornalista Rogério Faria Tavares, o livro Nos 120 Anos de Afonso Arinos de Melo Franco (Editora Miguilim) prenunciou seu sucesso absoluto no lançamento, realizado na Academia Brasileira de Letras. Reunindo acadêmicos, juristas, jornalistas, estudantes e leitores em uma noite que conjugou celebração e reflexão, a sessão de autógrafos, que se somou a um debate com os autores, na Sala José de Alencar, foi marcada por intensa circulação de ideias e por depoimentos que destacaram a atualidade do pensamento de Arinos.

O acadêmico Arno Wehling enfatizou, em sua fala, a importância de resgatar figuras que contribuíram para a formação institucional e intelectual do país, enquanto Rogério Faria Tavares, presidente emérito da Academia Mineira de Letras, destacou o caráter coletivo da obra e o esforço de reunir diferentes vozes em torno de um mesmo legado.

O evento também foi permeado por lembranças de convivência e por análises que situaram Afonso Arinos no panorama mais amplo da cultura brasileira, reafirmando sua condição de elo entre tradição e modernidade.

Imagem direita - Afonso Arinos de Melo Franco, deputado udenista que fez a primeira Lei antirracista do Brasil. Imagem da esquerda - A plateia reuniu acadêmicos e personalidades ilustres que foram prestigiar o lançamento da coletânea sobre a trajetória de Afonso Arinos de Melo Franco.

Os 17 ensaios que compõem a obra percorrem a vasta produção e atuação de um dos mais importantes nomes do pensamento brasileiro no século XX, refletindo a amplitude temática que caracterizou Afonso Arinos. O volume abrange, ao longo das mais de 500 páginas, suas contribuições ao direito constitucional, suas reflexões sobre a formação do Estado brasileiro, sua atuação na política externa, além de suas incursões na história das ideias, na história econômica, na crítica literária e no memorialismo.

A proposta editorial evita a compartimentalização rígida. Ao contrário, os textos revelam a unidade profunda de um pensamento que se constrói na interseção entre teoria e prática. Afonso Arinos não foi apenas um observador de seu tempo, mas um agente ativo na construção das instituições e dos debates que moldaram o Brasil do século XX: “Ele foi um homem de reflexão e de ação. É um perfil muito raro de se encontrar no cenário atual, em que há poucos intelectuais dispostos a atuar na vida político-partidária”, afirmou o acadêmico mineiro Rogério Tavares.

imagem da direita - Rogério Faria Tavares, entre Ailton Krenak, Cesario Mello Franco e Angelo Oswaldo. No centro - O ex-ministro Bernardo Cabral também foi presigiar o evento na ABL. Imagem da esquerda - Os organizadores da publicação Arno Wehling e Rogério Tavares, receberam muitos cumprimentos.



A coletânea reúne autores cujos ensaios estabelecem um diálogo consistente com diferentes aspectos da obra de Arinos. São eles: Airton L. Cerqueira Leite Seelaender, Angelo Oswaldo de Araújo Santos, Arno Wehling, Aspásia Camargo, Bernardo Cabral, Cesario Mello Franco, Christian Lynch, Cláudio Aguiar, Domício Proença Filho, Edmar Lisboa Bacha, José Sarney, Joaquim Falcão, Luiz Feldman, Rogério Faria Tavares, Rubens Ricúpero e Sydney Limeira Sanches. Entre os colaboradores, intelectuais que conviveram diretamente com Afonso Arinos, trazendo à tona dimensões pessoais e testemunhais de sua trajetória, e estudiosos que, a partir de pesquisa e distanciamento crítico, analisam sua produção sob novas perspectivas.

Esse encontro entre memória e interpretação confere inegável densidade ao volume. Ao mesmo tempo em que humaniza a figura do homenageado, evita a idealização simplificadora, apostando na complexidade de um intelectual que soube tensionar seu próprio tempo. A obra revisita desde sua atuação na Câmara e no Senado, no Ministério das Relações Exteriores e na Universidade (foi professor na UERJ e na UFRJ), até sua participação em entidades como o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, o Instituto dos Advogados Brasileiros e a Academia Brasileira de Letras.

Jurista, diplomata, professor, ensaísta e político, Afonso Arinos construiu uma trajetória marcada pela densidade intelectual e pela rara capacidade de transitar com rigor entre diferentes campos do saber. Filho da aristocracia ilustrada de Minas Gerais, Arinos foi o nono parlamentar da família, que se engajara na Revolução de 1930. Imortal da Academia Brasileira de Letras, foi deputado federal, senador da República e um dos formuladores mais consistentes do pensamento liberal brasileiro em sua vertente democrática.



Um dos marcos incontornáveis de sua atuação pública foi a autoria da primeira lei brasileira de combate ao racismo – a chamada Lei Afonso Arinos, promulgada em 1951, que tipificou como contravenção penal a discriminação racial no país. Em um contexto histórico ainda marcado por profundas desigualdades e por uma naturalização perversa do preconceito, a iniciativa representou um gesto pioneiro no reconhecimento jurídico da questão racial no Brasil. Em tempos contemporâneos, nos quais o racismo estrutural segue sendo objeto de enfrentamento e debate, revisitar essa contribuição é também reafirmar a centralidade de sua atuação ética e política.

Trajetória e pensamento crítico

Nascido em Belo Horizonte no dia 27 de novembro de 1905, Afonso Arinos pertenceu a uma linhagem de intelectuais e homens públicos que marcaram a história política e cultural brasileira. Sua formação jurídica o levou à docência, tendo lecionado Direito tanto na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) quanto na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), onde influenciou gerações de estudantes.

Na vida pública, destacou-se por sua independência crítica. Foi um opositor de Getúlio Vargas em momentos decisivos da história política nacional, posicionando-se com firmeza em defesa de princípios institucionais e democráticos. Sua atuação parlamentar foi marcada pela eloquência e pela consistência argumentativa, características que também se refletem em sua produção ensaística. Como diplomata, contribuiu para a formulação da política externa brasileira em um período de intensas transformações geopolíticas. Já como crítico literário e memorialista, deixou registros fundamentais sobre a cultura brasileira e sobre figuras centrais de seu tempo, consolidando-se como um intérprete atento das tradições e tensões do país. Falecido em 1990, quando era senador, Afonso Arinos foi o mais idoso membro da Assembleia Nacional Constituinte, e o parlamentar que falou em nome de todos no dia da promulgação da Constituição de 1988. Suas ideias em favor do estado democrático de direito e da expansão da soberania nacional parecem, hoje, mais atuais que nunca.

Essa multiplicidade de experiências – entre o direito, a política, a diplomacia e a literatura – é um dos eixos estruturantes da coletânea agora publicada. O livro recupera não apenas o pensamento de Afonso Arinos, mas também sua inserção histórica, evidenciando como sua obra dialoga com os grandes temas do Brasil contemporâneo.

Combatente da justiça

A dimensão humana e afetiva de Afonso Arinos ganha relevo em episódios que atravessam sua trajetória. Um dos mais emblemáticos ocorreu por ocasião de seu aniversário de 70 anos, quando recebeu de presente um poema de Carlos Drummond de Andrade. No texto, o poeta mineiro dirigiu-se ao amigo como “meu combatente do direito e da justiça” – síntese precisa de uma vida dedicada à reflexão e à ação pública.

O gesto de Drummond não apenas revela a rede de interlocuções intelectuais da época, mas também sublinha o reconhecimento, entre seus pares, da integridade e do compromisso que marcaram a atuação de Afonso Arinos.

Atualidade de um legado

A publicação de Nos 120 Anos de Afonso Arinos de Melo Franco reafirma a pertinência de um autor cuja obra permanece decisiva para compreender o Brasil. Sua defesa das instituições, sua atuação pioneira no combate ao racismo e sua reflexão sobre a identidade nacional oferecem instrumentos analíticos ainda indispensáveis. Ao articular diferentes perspectivas sobre sua obra e trajetória, o livro organizado por Arno Wehling e Rogério Faria Tavares consolida- -se como referência para estudiosos e leitores interessados na formação intelectual brasileira. Trata-se de uma contribuição significativa para manter vivo – e em permanente revisão – o legado de um dos grandes intérpretes do país.

Nesse cenário marcado por desafios políticos e sociais, revisitar esse legado não é apenas um gesto de memória – é um ato de lucidez. Sua obra, erguida sobre a coragem ética e o compromisso com a justiça, atravessa o tempo como um chamado: lembrar que a civilidade não é ornamento, mas fundamento; que a palavra pública exige responsabilidade; e que a lei pode – e deve – ser instrumento de dignidade.

Mais do que celebrar uma data, esta coletânea reacende uma presença – viva, exigente, incontornável. E, ao fazê-lo, nos convoca a recusar a indigência do debate e o desgaste dos princípios, lembrando que a palavra pública, quando despojada de ética, perde não apenas o sentido, mas a própria legitimidade. Porque, enquanto suas ideias continuarem a inquietar consciências e a iluminar o dissenso com rigor e coragem, Afonso Arinos de Melo Franco não se encerra na memória: ele persiste como horizonte crítico, como medida de integridade e como interpelação permanente a um país que não pode se permitir esquecer o valor da justiça.



Por Manoela Ferrari - Fotos: Michael Félix