Janeiro - 2026 - Edição 310

Ana Maria Gonçalves: pioneirismo na ABL
Nas pedras dos corredores da Academia Brasileira de Letras,
nas cadeiras numeradas que guardavam apenas silêncios de gênero e cor, entrou uma voz – quente, firme, ancestral: a da escritora
mineira Ana Maria Gonçalves.
Ela passa a sentar na cadeira 33, mas também ergue de pé
os que estavam à margem. Sua elegância literária carrega o peso
da história, a leveza da escrita, o desejo de ver-se no espelho da
grande literatura.
O dia da posse – 7 de novembro de 2025 – entrou para a
história nos mundos literário e negro, ao mesmo tempo. O painel
em néon da artista visual Juliana Borges, com a frase “Uma mulher
negra feliz é um ato revolucionário”, projetado no telão, arrepiou
os presentes ao som do clássico “Embala eu”, na voz agreste de
Clementina de Jesus (1901-1987), um pouco antes do discurso de
posse da nova imortal. Em sua fala, Ana Maria causou polêmica ao
dizer que foi escolhida por falar “pretuguês” e praticar a “escrevivência”. Foi emocionante ver a Academia Brasileira de Letras (ABL)
abarrotada do povo preto, muitos vestindo branco, como pede o
axé na sexta-feira, dia de Oxalá, ao lado de tantos nomes relevantes. O cantor e compositor baiano Gilberto Gil, que ocupa a cadeira
20 da Casa desde 2022, fez a entrega do diploma.
Na coletiva de
imprensa, um pouco
antes da cerimônia,
foi Ana Maria, de 55
anos, quem perguntou
aos jornalistas: “Por
que demorou 128 anos
para que uma mulher
negra estivesse aqui,
numa cadeira de tantas
outras que, com certeza, já teriam capacidade e vontade?”.
Sinal de que o
mundo está mudando. Outro assunto que
reverberou foi o pioneirismo do figurino: o
fardão de Ana Maria foi criado coletivamente pelas costureiras da
Portela, inspirado no vestido usado por Rachel de Queiroz em sua
posse, em 1977, e com elementos da ancestralidade. Ana destacou
que “o processo de confecção do fardão é muito caro para o escritor” e viu valor em levar a costura para a escola de samba que deu
visibilidade ao seu livro mais famoso (Um Defeito de Cor, escrito
em 2006, foi enredo da Portela no Carnaval de 2024): “ser enredo
da Portela tirou o livro da bolha”, afirmou. Com esse gesto político,
a acadêmica vai além e valoriza o trabalho dos artistas periféricos
que colocam a sua arte a serviço do Carnaval.

E em seu discurso futuro – que todos escreverão juntos – estará não só ela, mas uma casa que agora abre uma porta, um caminho para quem ficou fora. E fica a promessa de que aquela cadeira ora ocupada possa, amanhã, ser apenas uma entre muitas que acolham a diversidade brasileira – em cor, voz, origem, sonho. Com 30 votos dos 31 possíveis, um resultado quase unânime em uma instituição que nunca dera esse passo antes para uma mulher negra, Ana Maria teve sua eleição confirmada como um momento histórico. Décima terceira mulher eleita na história da ABL, a acadêmica, que sucedeu o saudoso gramático e filólogo Evanildo Bechara, é a primeira mulher negra a integrar a instituição desde a sua inauguração. Fundada em 1897, a Casa de Machado tem quarenta cadeiras perpétuas, ocupadas por membros vitais. Em mais de um século, poucas mulheres foram eleitas – e dentre elas, nenhuma mulher negra até agora. A escolha de Ana Maria Gonçalves, portanto, rompe um silêncio institucional: não apenas de cor, mas de gênero, de origem, de quem pode ocupar a palavra pública e simbolizar representatividade. A vítima invisível dessa tradição é a diversidade: de cor, de gênero, de memória. Daí, a posse marcar um passo enorme, nascendo como símbolo – e como ponte. Símbolo de que, mesmo em instituições centenárias, o tempo pode se inclinar. Ponte entre o que foi e o que pode tornar-se: uma ABL mais representativa, aberta aos múltiplos recantos da literatura brasileira e às vozes que, apesar de estarem aqui, aguardavam ser ouvidas. História Ana Maria Gonçalves nasceu em 1970, em Ibiá, Minas Gerais. Publicitária por formação, morou em São Paulo por treze anos até se cansar do ritmo intenso da cidade e da profissão. Em viagem à Bahia, encantou-se com a Ilha de Itaparica, onde fixou moradia por cinco anos e descobriu sua veia de ficcionista, passando a se dedicar integralmente à literatura e ao multifacetado universo cultural da diáspora africana nas Américas. Sua estreia no romance aconteceu em 2002, com a publicação de “Ao lado e à margem do que sentes por mim” – “livro terno, íntimo, vivido e escrito em Itaparica”, segundo o depoimento de Millôr Fernandes. O texto teve circulação restrita, em primorosa edição artesanal. Em 2006, tornou-se conhecida em todo o país com o lançamento de Um Defeito de Cor, narrativa monumental de 952 páginas. O romance encena em primeira pessoa a trajetória de Kehinde, nascida no Benin (atual Daomé), desde o instante em que é escravizada, aos oito anos, até seu retorno à África, décadas mais tarde, como mulher livre, porém sem o filho, vendido pelo próprio pai a fim de saldar uma dívida de jogo. O texto dialoga com o modelo pós-moderno da metaficção historiográfica e remete às biografias de Luiza Mahin – celebrada heroína do Levante dos Malês, ocorrido em Salvador em 1835 – e do poeta Luiz Gama – líder abolicionista e um dos precursores da literatura negra no Brasil, também vendido como escravo pelo próprio pai. Um Defeito de Cor conquistou o importante Prêmio Casa de Las Américas de 2006 como melhor romance do ano. Já considerado um clássico da literatura brasileira, demorou cinco anos para ficar pronto (dois de pesquisa, um de escrita, dois de reescrita). Com a projeção da autora, o livro vem ganhando merecido resgate nas listas de best-sellers. Em suas próprias palavras, ela lembra que “uma escritora negra, reparação é ser reconhecida e exaltada em vida”. Após residir alguns anos em New Orleans, nos Estados Unidos, Ana Maria retornou ao Brasil em 2014, fixando-se novamente em Salvador. Mesmo fora do país, esteve sempre presente e atuante nos debates públicos envolvendo a questão étnica no Brasil. Por ocasião da denúncia de racismo no livro As Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato, produziu diversos artigos sobre o tema. Mais tarde, quando das reações a um comercial de televisão em que a representação de Machado de Assis era feita por um ator branco, novamente a escritora veio a público e se uniu aos protestos que redundaram num pedido de desculpas e na produção de outra peça com um ator negro.
Dotada de aguçada visão crítica quanto às relações sociais vigentes e solidária com os estratos subalternizados da população, Ana Maria Gonçalves vem participando de inúmeros debates no Brasil e no exterior. Além disso, faz da internet e das redes sociais um importante meio para trazer a público seus questionamentos em textos marcados por poderosa argumentação. Seu projeto literário não abdica, pois, de a todo instante provocar a reflexão do leitor quanto às condições históricas que levam à permanência da desigualdade, do racismo e de demais formas de discriminação. Entre outros projetos, finaliza um romance voltado para o público juvenil, mas com a mesma perspectiva crítica de nossas mazelas sociais que vem se tornando a marca registrada de seus escritos.
A magnitude do momento Muitos são as razões que apontam para o significado profundo dessa eleição, entre elas o reconhecimento de voz. Como afirmou Ana Maria Gonçalves: “Não posso carregar o peso de representar toda uma população que continua marginalizada e que é ela própria incrivelmente diversa.” A transformação simbólica é outro ponto a se destacar. Instituições mudam – ainda que lentamente. Essa posse é sinal de que o tradicional pode se abrir. De que o “ninguém antes de nós” pode tornar-se “alguém agora”. O acréscimo não é só numérico, mas simbólico: rompe uma rota de silêncio.
Para jovens escritoras negras, para leitoras negras, para leitoras em geral – ver alguém que compartilha cor, gênero, ancestralidade ou origem geográfica assumindo um espaço custoso é apontar um caminho.
O Brasil que cabe nas letras deve abranger todos os Brasis: afrodescendente, indígena, do Norte, do Sul, da periferia, da colônia, do litoral. A ABL, ao abrir essa cadeira para Ana Maria, sinaliza: reconhecemos que esse Brasil diverso deve estar representado.