Garrincha e João Saldanha por Adolar.
Maio - 2026 - Edição 312
Adolar, Mané e João
Em julho de 1990, quando atuava como artista gráfico
no Sindicato dos Petroleiros – entidade que por alguns anos foi
comandada pelo intrépido Ronaldo Cabral Magalhães, o “Ronaldo
Petroleiro” – eu estava nas oficinas gráficas do jornal Tribuna da
Imprensa para acompanhar a impressão de um dos tabloides da
entidade. Na época, muito antes da tecnologia digital, os jornais
eram montados artesanalmente em papel, depois eram gravados
em fotolitos para a produção das chapas de zinco e posterior
impressão nas máquinas rotativas. Nós deixávamos as artes das
páginas com os funcionários da gráfica e ficávamos aguardando a
finalização dos fotolitos para aprovação final e posterior impressão. Isso levava cerca de quarenta minutos, e como não havia
muita coisa para fazer do lado de fora do jornal, que ficava na Rua
do Lavradio, no Centro do Rio, resolvi percorrer a redação para
ver se esbarrava com alguém conhecido para jogar conversa fora.
Não encontrei ninguém do meu círculo de amizades, mas acabei
descobrindo um rapaz numa mesa cheia de desenhos. Me aproxi
mei e o jovem apresentou-se como Adolar, e estava atuando como
caricaturista no jornal dirigido por Hélio Fernandes. Conversamos
por uns 30 minutos, tempo suficiente para perceber que o desenhista tinha talento de sobra para a arte da caricatura. Depois de
me mostrar um monte de ótimos desenhos e explicar que gostava
de usar caneta hidrocor, nos despedimos e, antes de me retirar, o
cartunista sacou de uma pasta uma interessante caricatura onde
se vê Mané Garrincha recebendo no céu o cronista João Saldanha,
que havia falecido dias antes, e presenteou-me com o lindo desenho, arte que foi publicado na capa do jornal Tribuna da Imprensa
no dia 13 de julho daquele ano, um dia após a morte do “João sem
medo”. Feliz da vida com o valioso presente, voltei para as oficinas
da gráfica para concluir minhas obrigações.
Formado pela Faculdade de Comunicação Social e
Jornalismo, da Universidade Gama Filho, Adolar de Paula Mendes
Filho chegou a jogar futebol, em 1977, nas divisões de base do Vasco
da Gama, seu time do coração, mas ele era mesmo um craque do
lápis e desenhou uma bela trajetória como caricaturista. Começou
profissionalmente, em 1988, quando publicou ótimas caricaturas
de jogadores de futebol e outras personalidades do esporte na
capa do Jornal dos Sports; mais adiante passou, como vimos acima,
pela Tribuna da Imprensa, mas logo transferiu-se, em 1991, para
o jornal O Dia; dois anos depois foi o vencedor do concurso para
revelação de novos talentos, tradicionalmente realizado pelo jornal
Folha de S. Paulo, passando a atuar com sucesso em São Paulo.
Aliás, em Campinas, existe um famoso restaurante especializado
em culinária italiana, o Lellis Tratoria, que mantém há anos uma
rica coleção de caricaturas de celebridades decorando o ambiente,
entre as quais, alguns ídolos do futebol, são mais de 500 caricaturas
criadas pelo Adolar. Um recorde absoluto. Infelizmente, o talentoso
artista faleceu prematuramente em 2021, aos 59 anos, após lutar
arduamente contra um câncer. Deixou esposa, Srª Ivaldete Luna e
três filhos.
Para apreciação do talento do genial Adolar, exibo a estupenda arte com Garrincha e João Saldanha que circulou com destaque
na primeira página da Tribuna da Imprensa.
Saúde a Arte!