Abril, 2021 - Edição 266

Éramos felizes e não sabíamos

Daqui a alguns dias, minha agenda assinala um ano praticamente em isolamento total. Parece mentira!
Como tenho vivido?
Num canto do quarto, numa poltrona amiga, me aguardam dois ou três conjuntos de roupa caseira, que uso e lavo dia sim, outro também. Ao lado, o pijama e a camisola, os mesmos de sempre.
Manicure e podólogo sumiram do meu mapa semanal, assim como a ida ao salão de beleza. Compras... Mas que compras? As de alimentação, produtos de limpeza, além de medicamentos, chegam pelo motoboy e são pagas via celular. Dinheiro “de verdade” guardo um tiquinho de nada para raras ocasiões.
Ao acordar, consulto o pequeno calendário para ver onde estou, se o mês está começando ou se já é outro que chegou... E vou em frente. De tanto andar, de lá para cá, já “gastei” dois chinelos macios. Os sapatos, bem comportados e novos por falta de uso, as bolsas idem, vestidos longos ou curtos, saias e blusas, calças compridas, bijuterias e outras miudezas permanecem no mesmo closet, bem arrumado, mas sem graça, sem aquela baguncinha alegre de antigamente.
Quando desço à portaria do prédio por alguma emergência, vou bem equipada: álcool em gel, máscara e óculos, cartão de crédito, lenço de papel etc. Volto em cinco minutos, morrendo de medo. A Covid-19 surgiu de repente, sem aviso prévio. No começo, parecia algo passageiro, despreocupação total. Puro engano. A pandemia, vinda pelos ares, chegou furiosa ao nosso planeta, espalhando um vírus misterioso e desconhecido.
Grande parte dos hospitais sequer possuem os leitos e respiradores necessários. Muitas mortes, atingindo em maior número os idosos. As vacinas surgem aos poucos, em quantidade menor do que o exigido. Pela imprensa, cenas cada vez mais tristes. Mesmo assim, muita gente não renuncia a praias lotadas nem mesmo a bares cheios ou festas clandestinas. Alguns, de regresso à casa, trazem o vírus invisível e terrível, contagiando pais, avós, enfim, pessoas que não têm coragem de ir nem ali na esquina. Parece que vivemos em outra galáxia. A impressão é de que não conhecia o apartamento onde moro há vinte anos. Agora “uso” tudo que antes era só uma passagem para sair, voltar, comer, dormir. Tenho, por sorte, uma varanda grande que me faz meditar: estou “morando“ na varanda. É que entro nela após o café da manhã e fico até meio-dia, depois de tomar sol, ler jornal, dar algum telefonema e apreciar a vista que mostra praias de Vitória com suas águas de azul intenso, recheadas de barquinhos coloridos e lanchas. Lá em cima da montanha, o Convento da Penha guardando Nossa Senhora, que parece nos abençoar.
Do alto do 8º andar, aprecio o verde das árvores e gramados e o agora menor movimento de carros. Reconheço que Vitória continua belíssima, mesmo enfrentando tempos conturbados. Depois de organizar a lista diária do que preciso, um gostoso banho de chuveiro me deixa mais animada. Retorno à varanda com um prato feito na cozinha. É o almoço, simples, mas gostoso.
Daí em diante, quase nada muda. Não esqueço a sesta, indispensável desde que me entendo por gente. Do quarto onde descanso, vejo notícias da televisão, cada vez mais preocupantes.
No meio da tarde, tendo saboreado um cafezinho acompanhado de pequeno pão quente, vou ao cinema, que fica pertinho, na sala. Refastelada no sofá, seleciono com cuidado os filmes que me foram indicados. Tenho a companhia de Maria dos Anjos, que me ajuda na escolha. Já assistimos a mais de duzentos filmes e seriados, todos catalogados. Muito bom este programa, faz a tarde virar noite.
Em seguida, breve jantar, telejornais e a novela que termina lá pelas 23h, me deixam sonolenta. Com a ajuda do Frontal, o sono chega. Sonho muito durante a noite.
Dentro de programa tão pouco variado, uma alegria. Consegui tomar a primeira dose da vacina, agendada a duras penas! Agora, conto os minutos para a 2ª dose! O isolamento social continua. A maior tristeza desse tempo foi a perda de duas grandes amigas, quase irmãs, vítimas do terrível Covid-19. Emigdia Vervloet e Maria Emyr Marreco jamais serão esquecidas por todos nós que convivemos com elas por anos a fio, sem nunca imaginar que nos deixariam tão cedo, com tanta vida para saborear. Restará a saudade para sempre. Nos momentos de solidão, faço uma pergunta a mim mesma: será que o ano de 2020 deveria ser “apagado” do século? E uma parte deste 2021 também?
Enquanto rezo para que este período louco chegue ao fim, organizo planos para o futuro incerto, filosofando baixinho: “éramos felizes e não sabíamos...”
Alguma coisa é certa, o amanhã será diferente. Pequenos detalhes do dia a dia, supérfluos e considerados valiosos, serão relegados a plano inferior. Menos exigências, mais generosidade, amor ao próximo, simplicidade. E, acima de tudo, a volta do que considero como o maior invento do ser humano e que agora nos foi negado.
Não se trata de nada material, como a roda, os foguetes interplanetários ou quaisquer outros avanços tecnológicos. Nem mesmo a chegada à Lua. A maior invenção dos que habitam o planeta Terra e que retornará com força total é: O ABRAÇO.


Por Regina Magalhães - Professora da Ufes, membro da Academia Feminina Espírito-santense de Letras.