Maio, 2020 - Edição 255

Reflexões sobre a arte da escrita

A peste e a literatura

A literatura já tratou bastante da questão de cenários pandêmicos, descrevendo histórias reais ou fictícias sobre como a humanidade pode sofrer sob o jugo de microrganismos a respeito dos quais, na maioria das vezes, tem pouco conhecimento ou controle.

Em 1722, Daniel Defoe lançou um livro muito influente a esse respeito. Em Um Diário do Ano da Peste (A Journal of the Plague Year), ele fez uma pesquisa meticulosa para escrever a respeito do surto de peste bubônica que atacou a cidade de Londres entre 1665 e 1666. O autor inventa um cidadão, um comerciante que vacila entre salvar a sua vida (fugindo para o campo) e tentar levar adiante o seu negócio. Ele termina por permanecer na cidade e, tendo sobrevivido à peste, se torna o narrador ideal dos acontecimentos. Logo no início, temos a descrição de como a peste avançou pela Europa mês a mês, chegando na Itália em 1663, na Holanda em 1664 e em Londres em 1665. Defoe traz uma documentação precisa de como, a cada semana, as paróquias da cidade registraram mais e mais mortes, dando o sinal às autoridades de que algo terrível estava acontecendo. No mês de maio de 1665, a situação se torna insuportável. Em meio à descrição mais ampla, a narrativa traz as histórias de vários personagens, revelando o cenário apocalíptico em que a cidade se vê mergulhada. Sabemos dos que sofrem sem poder sair de suas casas, dos atingidos pela dor da morte de familiares, daqueles que perdem a sanidade, dos que amaldiçoam o nome de Deus pelas ruas, da força da repressão do Estado e da anarquia provocada pelos roubos e pelos arrombamentos de casas.

No conto semiautobiográfico, que dá título ao seu livro Cavalo Pálido, Pálido Cavalheiro (Pale Horse, Pale Rider), Katherine Anne Poter mostra um casal de jovens que tem a vida atravessada pela Primeira Guerra Mundial e pela epidemia da febre espanhola, que assolou o mundo entre 1918 e 1919. No conto, os jovens Miranda e Adam estão apaixonados. Eles procuram viver intensamente os seus dias, principalmente porque Adam irá em breve para o front de guerra na França. Em sua sede de existência, eles não querem se dar conta de que outra ameaça se aproxima deles. Após uma noite no teatro, Miranda começa a sofrer profundamente dos sintomas da febre espanhola. Adam cuida dela na pensão em que ela mora e a leva ao hospital no dia seguinte, onde ela fica internada por dias até se recuperar, apenas para saber que o seu amado havia morrido do mesmo mal, muito provavelmente contraído dela. Uma das belezas do conto de Poter é que ela nos mostra o ser humano tendo de lidar com a mais básica de suas condições: a mortalidade.

Muito influenciado pelo trabalho de Defoe, Gabriel Garcia Márquez, em Amor nos Tempos de Cólera, descreve uma cidade corroída por uma epidemia de cólera como pano de fundo para a longa história de amor de Florentino Aiza, Fermina Daza e Juvenal Urbino. Este último, o médico que luta para acabar com a epidemia em sua cidade, que apresenta um cenário decadente em que estão presentes desde infestações de ratos a vapores pestilentos de uma urbe sem saneamento apropriado e que é descrita em vários aspectos de sua decadência. No romance, Garcia Márquez trabalha com os múltiplos sentidos da palavra “cólera”, deixando-nos com a certeza de que qualquer comunidade que tenha vivido uma epidemia, continua a carregar por muito tempo, e de diferentes maneiras, as marcas de sua passagem.

A lista é longa, eu deixarei de fora muitos livros devido ao curto espaço que tenho aqui. Ao leitor curioso, eu recomendo a pesquisa de, pelo menos, mais três obras sobre o tema: Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago (1995), Journal of the Plague Years (Diários dos anos da peste), de Norman Spinard (1988) e Oryxand Crake, de Margaret Atwood (2003). Por fim, não poderia deixar de mencionar aquele que, talvez, seja o livro mais famoso sobre o tema. Em A Peste, de Albert Camus, publicado em 1947, acompanhamos a luta do doutor Bernard Rieux em meio à peste bubônica que assola a cidade argelina de Oran. A grande potência dessa narrativa é que, embora ela tenha sido baseada em fatos ocorridos em 1849, o seu autor atualiza os acontecimentos para o século XX, retratando personagens e situações muitos próximas de nós.

Nos livros que listei acima, mais do que sobre a peste retratada neles, abordam-se os comportamentos humanos em meio ao caos. Não é preciso ler muitos livros para se perceber que as condutas são muito similares em cada uma das histórias. Há quase sempre aqueles (geralmente médicos) que descobrem a peste e lutam para chamar a atenção das autoridades, há os personagens que a negam no início, tentando salvaguardar os seus interesses. Há as autoridades reticentes em agir, as primeiras vítimas fatais, o recrudescimento dos casos, aqueles que começam a lucrar com a crise, os personagens que perdem o controle de suas ações, as consequências, muitas vezes inesperadas, das quarentenas, dos campos de concentração, da crise econômica, da crise psicológica dos sobreviventes diante dos cadáveres que se avolumam, do que fazer para ajudar os mais pobres a se manterem vivos e para que a doença não chegue aos lares dos abastados e poderosos.

A leitura desses e de outros livros sobre o tema nos põe muitas questões. Uma delas seria o que aprendemos com a totalidade dessa experiência humana. Quantas pestes a humanidade terá de viver para que possamos nos organizar em face de tudo o que uma delas pode destruir? Depois da passagem da peste, como cuidar dos que ficaram? Até quando continuaremos a repetir as mesmas necropolíticas que dividem os seres humanos entre aqueles que têm direito à vida e aqueles que nem têm a existência confirmada por um documento que os identifique no meio do caos? Quantas pandemias teremos de viver?

*William Soares dos Santos é professor da UFRJ e escritor.