Opiniões Por Arnaldo Niskier

Não se pode ensinar tudo a todos

O especialista Simon Schvartzman, ao falar na Academia Brasileira de Letras, abordou as questões ligadas ao ensino médio brasileiro. Segundo ele, “a qualidade da nossa educação é bastante precária”.
O que se publicou sobre o ensino médio, no governo passado, como medida provisória, se fez sem um estudo acurado. A inovação mais importante, de todo modo, foi impedir que permanecessem 13 matérias no currículo, o que é um evidente absurdo. Com a nova legislação, o ensino técnico passou a ser apenas mais uma opção.

A proposta do Bloco Curricular foi muito discutida, mas apresenta uma série de problemas para a sua adequada implementação. O primeiro dilema é como manter um padrão de excelência, numa rede visivelmente desigual. Com um pormenor nada desprezível: cerca 1/3 dos que chegam ao ensino médio não alcançam o final do curso. Há uma séria evasão, o que significa um brutal desperdício. “Temos que atender de forma diferenciada a alunos que são diferentes.”
O sistema de cotas não é o maior dos nossos problemas. Outro dilema que temos de enfrentar é a questão do currículo único. Não se deve (nem se pode) ensinar tudo a todos.
Temos um sistema antiquado, ainda baseado na obsoleta Reforma Capanema. Segundo Schvartzman, que foi presidente do BNDES, o modelo vigente não pode promover distinção entre cultura popular e a chamada cultura de elite. O aluno precisa se aprofundar, como pede a taxonomia de Bloom. Ele não deve ficar apenas no nível cognitivo.
Hoje, ainda se discute qual deve ser a parte comum, na formação dos educandos, com o pormenor de que a pior solução é entupir os alunos de matérias. Por outro lado, temos criado complicações em demasia para os chamados cursos técnicos. Os países europeus resolveram isso muito bem com os seus cursos pós-secundários. O bom exemplo, na realidade brasileira, é o trabalho feito pelo Senac e pelo Senai, mas uma discussão bastante complicada é a que se refere ao mercado de trabalho, com todas as inovações previstas. Deseja-se competir no ensino técnico sem levantar adequadamente o que vem por aí. Segundo o conferencista, ensina-se matemática de forma equivocada: “É preciso ensinar a resolver problemas.” Condenou os excessos do Bloco Único, que tem mais de 600 páginas, o que é um evidente exagero. Essas ideias têm sido esquecidas pelo MEC, que prefere adotar a orientação condenável de um linchamento educacional.