Opiniões Por Arnaldo Niskier

O escriba do cerrado

Ele mesmo se proclama “um escriba do cerrado”. Trata-se do excelente poeta goiano Gabriel Nascente, inspirada figura das letras do Brasil Central, que durante alguns bons anos dirigiu com muita competência o setor cultural do Tribunal de Justiça de Goiás (TJGO).

Tive o privilégio de acompanhar algumas das suas iniciativas, todas elas vitoriosas. Como membro da Academia Brasileira de Letras, visitei Goiânia e participei de eventos no TJGO, inclusive bem montadas exposições que deram guarida à arte de figuras de relevo da cultura local. Sempre considerei importante esse tipo de trabalho.

Andar em companhia de Gabriel Nascente é um verdadeiro privilégio. Ele sempre foi fiel aos princípios de Borne: “Não fosse a poesia, a vida seria um eterno sangrar.” Não é bem como ele se sente, pois foi vítima de uma inexplicável demissão do TJGO, mas não foi impedido de prosseguir produzindo os seus versos admiráveis. Além do mais, deixou vínculos profundos e amistosos com a Academia Brasileira de Letras, embora essa interrupção brusca possa prejudicar o fluxo das homenagens programadas.

Mas ele tinha outros planos, igualmente nobres, como a elaboração do livro de discursos de posse dos magistrados, e mais: a formação do preciosíssimo acervo artístico da Pinacoteca Des. Camargo Neto, a construção da Galeria de Arte do TJGO e a paralização de uma enorme agenda de eventos artísticos e culturais, no Espaço Cultural Goiandira do Couto, que ocupa todo o átrio do prédio, ambiente que tem a assinatura de Gabriel Nascente.

Uma pena que tudo isso tenha acontecido. Aliás, parece que é uma doença que se espalha pelo Brasil. Outro fato que merece reparos é a anunciada decisão da Caixa Econômica de fechar o seu Centro Cultural, no Rio de Janeiro, onde têm acontecido dezenas de notáveis promoções. Se o motivo é economia, lamenta-se que tenha alcançado o setor cultural, tão mal serviço de verbas públicas, como se sabe. Nesse caso, cabe uma pergunta essencial: o que será feito da área de 6 mil metros quadrados ocupada pelo referido e já tradicional Centro Cultural? Qualquer resposta não preencherá o vazio do que representa essa esdrúxula decisão.

Se cabem sugestões nos fatos assinalados, uma delas é fazer retornar às suas atividades o poeta Gabriel Nascente e toda a sua equipe, para o bem da cultura do Estado de Goiás. E no caso do Rio de Janeiro, evitar o fechamento do Centro Cultural, que representa mais um golpe no combalido Estado que já foi a capital do nosso país. Isso tudo é pedir muito?