Literatura Infantil

Por Anna Maria de Oliveira Rennhack

Cores, flores e amores

A primavera sempre recarrega nossas energias e nossa expectativa por momentos melhores. Para iluminar e colorir a nossa página, selecionei alguns livros que me encantaram, premiados na seleção anual da FNLIJ e apresentados no último Salão FNLIJ do Livro para Crianças e Jovens.

Os Trabalhos da Mão – Alfredo Bosi, ilustrações de Nelson Cruz (Editora Positivo) – Se alguém ainda possui alguma dúvida da relação de dependência de texto e ilustração nas obras destinadas aos pequenos e jovens leitores, aprecie com delicadeza e espanto esse lindo livro. Mas do que beber da fonte, Nelson Cruz foi banhar-se nas águas de artistas clássicos para ilustrá-lo. O texto, em prosa poética, foi extraído da obra de Bosi O Ser e o Tempo da Poesia, de 1977. A mão delicada, que acaricia; forte, que colhe e forja; que aponta e julga, que cria beleza em forma de desenhos e pinturas é perfeitamente descrita e mostrada na recriação de imagens por Nelson e na criatividade e beleza das palavras de Bosi. A obra recebeu o Prêmio FNLIJ Malba Tahan – O melhor livro informativo, mas acredito que poderia estar entre os melhores para o jovem, a melhor ilustração, o melhor da poesia!

O Mar de Cecília – Homenagem da querida Rosinha à Cecília Meireles (Editora do Brasil). Rosinha preparou com cuidado o projeto, a seleção dos pequenos textos, a ilustração, entregando aos leitores uma obra de deslumbramento. Encontramos Cecília em cada página, em cada desenho. Rosinha nos convida, de forma delicada, à leitura da poesia de Cecília Meireles e olhamos para a poeta com novos olhos, os olhos de Rosinha. Prêmio FNLIJ Odylo Costa, Filho – O melhor livro de poesia.

O Passeio – Pablo Lugones, ilustrações de Alexandre Rampazo (Gato Leitor) – Lindo livro que me levou a pensar, mais uma vez, na dependência direta de texto e ilustração. Aqui, parece um pouco com a história do ovo e da galinha: o que nasceu primeiro, a história ou a ilustração? O texto curto, apenas pontuando algumas cenas, carrega de sensibilidade e ternura as ilustrações. Tema difícil de ser tratado com os pequenos, a ausência, a saudade, a morte, são apresentados de forma poética e gentil, mostrando, com naturalidade, o percurso da vida. Um lindo presente que ganhei da Glorinha Granjeiro. Prêmio FNLIJ Ofélia Fontes – O melhor livro para criança.

Uma Vez – Todo mundo merece ter alguma coisa boa na vida pelo menos uma vez – Morris Gleitzman, tradução de Marília Garcia (Paz e Terra) – Não gosto de histórias de guerra. A desumanidade, a ausência de lógica e o absurdo da brutalidade me atingem de forma muito intensa. Quando a história envolve crianças, sofro em dobro. O Diário de Anne Frank (Anne Frank – Record); Império do Sol, adaptado para o cinema por Steven Spielberg e que tem por base a obra autobiográfica de J. G. Ballard; O Menino do Pijama Listrado (John Boyne, Seguinte) são alguns exemplos da participação de crianças que, muitas vezes de forma paralela aos acontecimentos, sofrem as consequências da insanidade dos adultos. Uma Vez também é um livro sobre a guerra, aos olhos de um menino de 10 anos que tenta explicar, com a sua pequena experiência de vida, os acontecimentos violentos e incompreensíveis que presencia. Suas explicações são simples e é possível perceber os valores e o afeto que recebeu da sua família querida que tudo fez para salvá-lo. O mais incrível é que, mesmo compreendendo a relação de ódio na perseguição aos judeus, consegue ter por companhia na busca pela liberdade uma amiga querida cujos pais, nazistas, foram eliminados pela resistência. E aí... no meio de tantos sentimentos lindos, olha eu chorando, de novo! Que lembremos o passado, para que a história nunca mais se repita. Prêmio FNLIJ Monteiro Lobato – O melhor livro de tradução – Adaptação jovem.

Rosa – Odilon Moraes (Olho de vidro) – Este não é um livro fácil! Cuidadosamente editado por Marcelo Del’Anhol, nos remete à sutileza de Guimarães Rosa. Em 2014, recebeu o tradicional e respeitado Prêmio João-de-Barro, da Prefeitura de Belo Horizonte, na categoria de livro ilustrado. Marisa Borba, ao escrever sobre a obra, como votante da FNLIJ, nos ensina a sentir Rosa: “(...) será preciso desconstruir uma série de conceitos (ou seriam preconceitos?), abandonar preocupações com conteúdos ou quantidade de texto, com formas ou temas (...) Será preciso não pensar em faixas etárias (...) Será preciso apenas aceitar o convite (...) para ver com olhos desacostumados ...” Apenas abra o livro e se deixe levar pela magia estética e poética que a obra nos oferece, com calma e sensibilidade, no encontro do filho com o pai. Prêmio FNLIJ Ofélia Fontes – O melhor livro para criança e Prêmio FNLIJ – A melhor Ilustração.

Não, não vou assinar ou distribuir carta de apoio à Ana Maria Machado! Não, não vou comentar nas redes sociais e disseminar questões absurdas de pessoas rasas. Ana Maria está muito além disso. Escritora aplaudida e reconhecida como uma das maiores autoras da literatura infantil brasileira, premiada com o “Nobel” da literatura infantil, o Prêmio Hans Christian Andersen, do IBBY, International Board on Books for Young People, membro da Academia Brasileira de Letras, inúmeras vezes premiada pela FNLIJ – Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil e sempre homenageada por seus pares nos diversos encontros internacionais, como a Feira do Livro de Bolonha.

O livro O Menino que Espiava pra Dentro (Global – ilustrações de Alê Abreu) foi utilizado por mim em leituras com minha filha pequena, tímida e insegura, com enorme dificuldade de socialização por ser filha única em família de adultos. A capa era diferente, mais antiga, mas o valor do texto fez aflorar inúmeras inquietações que a ajudaram a compreender as diferenças e a sutileza da imaginação e da amizade.

Vários textos, olhados de forma limitada e depreciativa, estão sendo violentados nas redes sociais. Comemoramos no dia 8 de setembro o Dia Internacional da Alfabetização, mas muito mais do que ler, é preciso compreender, interpretar. Temas polêmicos, quando surgem, devem ser explorados e conversados. Não devem ser ignorados!
Não, não aceito mais essa censura diminuta e dogmática! Que O Menino que Espiava pra Dentro continue o seu caminho e que muitos outros textos de Ana Maria Machado abrilhantem a nossa literatura!