Lançamentos

Clarice Menina

Clarice (Global Editora), obra inédita de Roger Mello, apresenta, por meio da ficção, as observações de duas crianças que vivenciaram a ditadura militar. O autor entrega no olhar curioso da menina Clarice os questionamentos de diferentes gerações sobre o exercício de poder do adulto, sobre os medos, as contradições, as fugas e a opressão. Quanto pesa um livro que afunda no lago com a sua história e a história de quem o leu? Quão perigoso é ter um lago de livros emergindo no pensamento? Em fortes linhas, os autores deste livro traçam, como arquitetos, uma estrutura ficcional capaz de transportar o leitor de todas as idades por uma cidade construída e destruída pela utopia. Uma história que subverte o olhar como um caleidoscópio, um filtro, um cobogó, um reflexo no lago. Uma Brasília por memórias familiares sem a preocupação de entregar fatos, mas sim possibilidades de vivências das personagens. A obra reúne os talentos de Roger Mello, já consagrado no Brasil e no exterior, e do jovem ilustrador e designer Felipe Cavalcante, que revela o seu compromisso com a arte e a infância. Clarice é uma daquelas histórias que não conseguimos parar de ler e reler porque foi projetada num clima de suspense, em que as mensagens são cifradas e incompletas. Roger Mello nasceu em Brasília, em 20 de novembro de 1965, e vem se destacando como ilustrador e autor de livros infantis, sendo um dos nomes mais aclamados pela crítica e pelo público. Em 2014, ganhou o Prêmio Hans Christian Andersen, o mais importante prêmio infantojuvenil do mundo.

Última chance

Alyson Richman estava no cabeleireiro quando ouviu uma das clientes contar uma história em que a avó da noiva e o avô do noivo, que nunca haviam se encontrado antes da cerimônia dos netos, perceberam que já se conheciam antes da Segunda Guerra. Esse foi o pontapé inicial de Um amor perdido (Bertrand Brasil) livro premiado pelo Long Island Reads que conta a saga de Lenka, uma jovem estudante de arte que se apaixona por Josef, um médico recém-formado e irmão de sua melhor amiga. Na Praga do pré-guerra, eles se casam, mas logo são forçados a se separarem graças aos desdobramentos da perseguição aos judeus na Europa. Os caminhos de Josef o levam para a América, onde tem a oportunidade de recomeçar. Para se livrar dos traumas da morte de vários conhecidos, ele se torna obstetra e se dedica a colocar novas esperanças no mundo. Por algum tempo, tentou encontrar o seu amor perdido, mas as notícias não foram animadoras. Acreditando que Lenka estava morta, casou-se novamente. A narrativa é intercalada entre os relatos de Josef, que dá o tom saudoso contando como conseguiu ter uma nova vida nos Estados Unidos, longe daquela que foi o seu primeiro amor; e Lenka, que traz a triste realidade da guerra. Em um gueto judeu nos arredores de Praga, bem próximo dos fantasmas de um campo de concentração, ela sobrevive graças os seus dons artísticos e é obrigada a ajudar os nazistas com desenhos técnicos, ao mesmo tempo em que apoia o movimento de resistência dos judeus. Muitos anos depois, já viúvos e idosos, Josef e Lenka finalmente se encontram para uma última chance de viverem o amor.

Dicionário temático

Para comemorar criticamente os 130 anos da abolição da escravidão, a Companhia das Letras lança coletânea de textos organizados por Lilia Moritz Schwarcz e Flávio dos Santos Gomes, com cinquenta textos dos maiores especialistas no tema. Um panorama abrangente de como a escravidão se enraizou perversamente em nosso cotidiano. “A meia centena de ensaios concisos que Lilia Moritz Schwarcz e Flávio dos Santos Gomes reuniram neste volume, com título e intenção de ser um dicionário temático, mostra a grande quantidade de faces que compõem o que é um poliedro em movimento. Cada um desses textos convida a novos textos, a novas pesquisas, a aprofundamentos, a novas comparações e a contestações. Não faltam neste livro parágrafos sobre a espera, a busca e a obtenção da liberdade. Sobre a liberdade como antônimo de escravidão, mas que com ela coexiste para a ela se opor. Se estes ensaios nos dizem que o passado é sem esperança de conserto, eles não nos deixam esquecer que não há sombra sem luz”, salienta o acadêmico Alberto da Costa e Silva em seu prefácio. Lilia Moritz Schwarcz é autora de entre outros livros: O espetáculo das Raças, As Barbas do Imperador, O Sol do Brasil, Brasil: Uma Biografia (com Heloisa Murgel Starling; Companhia das Letras, 2015, indicado ao prêmio Jabuti/Ciências Humanas) e Lima Barreto: Triste visionário. Flávio dos Santos Gomes tem publicado dezenas de livros, coletâneas e artigos em periódicos nacionais e estrangeiros, atuando na área de Brasil colonial e pós-colonial, escravidão, Amazônia, fronteiras e campesinato negro.

Esquecer

Avenida dos Mistérios (Editora Rocco) é o mais recente romance do veterano escritor e roteirista John Irving, autor que completa agora 40 anos de uma bem-sucedida carreira. Três vezes finalista do National Book Award e ganhador do prêmio em 1980 pelo romance O mundo Segundo Garp, levado para o cinema com Robin Williams no papel principal, Irving retoma em seu mais novo livro algumas de suas obsessões: infância, orfandade, religião, sexo, excentricidade, realismo fantástico e escritores. No livro, ambientado entre o México e os Estados Unidos, Juan Diego Guerrero é um internacionalmente conhecido escritor mexicano-americano, autor de uma literatura pujante e sedutora, que transita entre a ficção e a realidade. A imaginação extremamente fértil e selvagem serve de contraponto, porém, para uma vida bastante limitada: um acidente na infância aleijou um de seus pés, dificultando seus movimentos. Além disso, um problema congênito no coração o faz tomar remédios que o impedem de sentir qualquer prazer ou emoções fortes, o que transforma sua existência em uma vida infeliz e medíocre. Mas uma promessa de infância vai fazê-lo romper com sua proteção autoimposta. Juan Diego é o mais novo escritor-personagem de sua galeria de criações, que inclui o fascinante Garp (de O mundo Segundo Garp). Limitado fisicamente, Juan Diego tem uma imaginação sem limites estimulada, principalmente, pela vida incomum que teve desde criança, vivida em um lixão em uma pequena e pobre cidade mexicana. Uma infância que ele deseja desesperadamente esquecer.

Corrupção

Fruto de dois anos de pesquisa, O Delator (Record Editora) é mais que uma biografia; é o raio-x do homem que implodiu a máfia da cartolagem nas três Américas. Traz informações exclusivas, detalhes até então desconhecidos, contratos explosivos jamais revelados e propinas de todos os tipos. Disseca, ainda, a parceria com Ricardo Teixeira e a CBF, que viria a sequestrar dos brasileiros a gestão de seu bem mais amado: o futebol. Os premiados jornalistas Allan de Abreu e Carlos Petrocilo mapeiam, aqui, as metamorfoses de Hawilla. De radialista do interior até senhor de um patrimônio que inclui afiliadas da TV Globo no interior, fazendas, holdings, jatinhos, fazendas de criação de gado; passando pela compra e venda de placas de publicidade na beira do gramado em estádios. Mais tarde, os direitos de transmissão televisiva dos mais importantes eventos de futebol do planeta. Os autores revelam, ainda, detalhes de seu depoimento ao FBI, após ser acusado de formação de quadrilha, obstrução de justiça, lavagem de dinheiro, fraude bancária... sem nunca ter sido nem ao menos indiciado em seu país natal. Protagonista de um mega esquema de corrupção que lhe garantiu fortuna e impunidade, Hawilla optaria por se tornar um homem-bomba. E implodir o sistema. Hawilla está para o futebol como Marcelo Odebrecht para a construção civil. Ambos prosperaram em um ambiente de privilégios e pouquíssima transparência. Escrutinar sua trajetória é entender as raízes do subdesenvolvimento de nosso futebol. Pródigo em talentos, mas indigente em gestão e profissionalismo, atrelado a interesses ilegítimos. O Delator é um gol de placa do jornalismo investigativo.

Excelência

O jornalista Cezar Motta entrevistou dezenas de pessoas e mergulhou fundo em uma extensa pesquisa documental para reconstituir a trajetória do JB desde a sua fundação, em abril de 1891, até o seu fim como jornal impresso, em 2010. Até a Última Página (Editora Objetiva) é um livro fascinante, que aborda desde as relações do jornal com os governos civis e militares até o dia a dia da redação. Os eventos protagonizados por nomes do quilate de Alberto Dines, Elio Gaspari, Millôr Fernandes, Zózimo, Carlos Castello Branco, Amilcar de Castro, Carlos Lemos e Wilson Figueiredo, entre muitos outros, acabam por compor uma espécie de mosaico dos mais variados aspectos da sociedade brasileira durante quase um século. Até a última página é leitura indispensável para todos aqueles que desejam conhecer a ascensão e a queda de um dos jornais mais emblemáticos do país. “Este é um livro de jornalista. Talvez por isso se leia com tanto gosto. Como uma grande reportagem. Para escrevê-lo, o autor pesquisou um bocado, é verdade. Mas, sobretudo, Cezar Motta entrevistou, ouviu, conferiu a revelação de uma fonte com a versão de outra, foi checar em documentos. Por vezes, deixou nestas páginas as contradições entre os diferentes testemunhos. Teve o cuidado de contextualizar o que foi apurando. Levou anos nesse trabalho, de cuidado e amor à notícia, empolgado com sua pauta”, assim ressalta em seu prefácio a acadêmica Ana Maria Machado, o jornalismo investigativo de Cezar Motta.