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Cotidiano

Durante quase dois anos, o historiador Luiz Antonio Simas manteve uma coluna semanal no jornal carioca O Dia sobre as “coisas” do Rio de Janeiro e de sua cultura: carnaval, botequim, festas, histórias de antigamente, velhas gírias, lojas do subúrbio, personagens e brincadeiras. De suas esquinas, espreitando pelas frestas, o historiador das coisas miúdas, como já se definiu, criou um universo simbólico sobre o Rio e, também, sobre o Brasil, reunido agora neste livro Coisas nossas, da José Olympio Editora. A seleta de crônicas traz ainda textos inéditos e outros publicados em sites e nas redes sociais do historiador. Na apresentação, Simas diz que tudo pode ser lido como “bulas antigas de remédios fortificantes”. Segundo ele, “os textos formam uma espécie de roteiro sentimental de uma cidade que talvez nunca tenha existido, mas que certamente vive em mim”. São histórias que o menino Simas relembra de sua infância, como a atração da Conga, a mulher-gorila, comum nos parques do subúrbio da década de 1980. Ou das balas Soft, que assombravam as crianças e seus pais, que tinham a certeza de que elas podiam matar, se engolidas inteiras. “Todas elas, de certa forma, falam a partir da fronteira entre a crônica e a história sobre a vida que acontece nas ruas, entre festas, folguedos, brincadeiras, celebrações e miudezas. Muitas coisas foram inventadas, sobretudo aquelas que, convictamente, tenho certeza de que ocorreram”, escreve Simas sobre as crônicas, na apresentação do livro.


Segredo

É a primeira metade da década de 1980, e o Brasil vive momentos de tensão e de expectativa. Enquanto a ditadura militar agoniza, a campanha pelas eleições diretas ganha força. Eulália está prestes a completar 18 anos, mas não pode experimentar os ventos de liberdade que começam a pedir passagem. É prisioneira na mansão onde vive, refém do autoritarismo e das excentricidades do pai, um político muito rico que reproduz, no cotidiano, a mentalidade arcaica das elites brasileiras. A chegada de um vestido de noiva e de um animal que fala, a onipresença das rosas e a morte que parece à espreita, sempre. Há, sobretudo, o embate permanente entre duplos – a ebulição da metrópole e a asfixia do espaço doméstico, tirania e liberdade, amor e posse. Mas A casa das rosas é, sobretudo, um libelo contra a opressão. Uma narrativa que dá vida ao horror do autoritarismo velado, aos abusos cometidos no interior dos espaços domésticos. A casa das rosas (Editora Tinta Negra), livro de estreia de Andréa Zamorano, que vive em Lisboa, conquistou crítica e público portugueses com trama que se passa em São Paulo, na época das Diretas Já. Andréa Zamorano nasceu no Rio de Janeiro e vive há tantos anos em Portugal quantos os que viveu no Brasil. A Casa da Rosas é o seu primeiro romance e foi publicado em 2015 pela prestigiada editora Quetzal. A obra foi vencedora do Prêmio Livro do Ano pela revista Time Out Lisboa.


Triste fim

Durante mais de dez anos, Lilia Moritz Schwarcz mergulhou na obra de Afonso Henriques de Lima Barreto, com seu afiado olhar de antropóloga e historiadora, para realizar um perfil biográfico que abrangesse o corpo, a alma e os livros do escritor de Todos os Santos. Esta, que é a mais completa biografia de Lima Barreto desde o trabalho pioneiro de Francisco de Assis Barbosa, lançado em 1952, resulta da apaixonada intimidade de Schwarcz com o criador de Policarpo Quaresma – e de um olhar aguçado que busca compreender a trajetória do biografado a partir da questão racial. Generosamente ilustrado com fotografias, manuscritos e outros documentos originais, Lima Barreto – Triste visionário (Companhia das Letras) presta um tributo essencial a um dos maiores prosadores da língua portuguesa de todos os tempos, ainda moderno quase um século depois de seu triste fim na pobreza, na doença e no esquecimento. A autora começa sua introdução: Criador e Criatura, descobrindo Lima Barreto. E assim o define: “Marquei meu primeiro encontro profissional com Lima Barreto dez anos atrás. Desde então o revejo com imensa frequência. Dialogo, discuto e sonho com ele. Às vezes, o acho engraçado; às vezes, o julgo triste; sempre, polêmico. Me divirto quando o escritor descreve e ironiza as trapalhadas dos políticos da sua época, e me insurjo, como ele, quando fazem mau uso do Estado.”


Garotos

Meg Cabot usa sua escrita engraçada e espertinha na construção de tramas para adultos. Os livros O garoto da casa ao lado, Garoto encontra garota e Todo garoto tem trás histórias independentes, mas um traço comum: Meg experimenta uma nova linguagem, narrando a história por meio de e-mails, mensagens de texto, posts no Facebook, reportagens de jornal e páginas de diário, por exemplo. É assim também em O garoto está de volta (Galera), com tradução de Alice Mello. O enredo acompanha o relacionamento complicado entre Becky Flowers e Reed Stewart. Os dois foram namorados na época da escola, mas um incidente no dia do baile de formatura acaba separando o casal. Ele vai embora da pequena Bloomville, torna-se um jogador de golfe famoso, e nunca mais retorna à cidade natal. Ela fica por lá e transforma-se numa bem-sucedida profissional no ramo de realocação de idosos. Um escândalo com os pais de Reed o fará retornar dez anos depois. E Becky vai ser contratada pela família Stewart para ajudar. Sem conseguirem evitar um ao outro e ainda cheios de perguntas e sentimentos que acreditavam pertencer ao passado, os dois vão ter muito o que resolver. Os personagens secundários absolutamente disfuncionais garantem o humor que é característica marcante da autora. Meg Cabot trabalhou como ilustradora e é autora das séries O diário da princesa, A mediadora e Desaparecidos, entre outras.


Terra de Rus

Começando no século 19 com a construção de São Petersburgo – “uma janela ao oeste” – e culminando com os desafios impostos à identidade russa pelo regime soviético, Orlando Figes escreve Uma história cultural da Rússia (Record), com tradução de Maria Beatriz de Medina. “De forma extraordinária, talvez exclusiva da Rússia, a energia artística do país foi quase inteiramente dedicada à busca da compreensão da ideia da sua nacionalidade. Em lugar nenhum o artista foi mais sobrecarregado com a tarefa da liderança moral e da profecia nacional, nem mais temido e perseguido pelo Estado. Alienados da Rússia oficial pela política e da Rússia camponesa pela educação, os artistas russos tomaram a si criar uma comunidade nacional de valores e ideias por meio da literatura e das artes plásticas. O que significava ser russo? Onde estava a verdadeira Rússia? Em São Petersburgo ou em Moscou? No império do tsar ou na aldeia lamacenta de uma só rua onde morava o “tio” de Natasha? Estas eram as “malditas perguntas” que ocuparam a mente de todos os escritores, críticos literários e historiadores, na época de ouro da cultura russa, de Pushkin a Pasternak. São elas as perguntas que estão sob a superfície da arte neste livro. As obras aqui discutidas representam uma história das ideias e atitudes – conceitos da nação pelos quais a Rússia tentou se entender.”, escreve o autor.


Correspondências

Em comemoração ao quinto centenário do nascimento de Manuel da Nóbrega, a Editora PUC-Rio e a Editora Loyola lançam a sua Obra Completa – organizada por Paulo Roberto Pereira. Nela são publicadas as cartas, os documentos, a literatura dramática, o que proporciona informações minuciosas da vida indígena brasileira. Tudo isso com uma ortografia atual e de fácil compreensão para os leitores. A correspondência de Nóbrega é um dos mais ricos e amplos quadros da realidade quinhentista brasileira. Com textos endereçados aos padres de Coimbra, ao rei D. João III e a Inácio de Loyola, revela-se o seu itinerário humano e intelectual. Responsável pela primeira missão jesuítica no Brasil, seus textos oferecem grande contribuição para a formação da nacionalidade brasileira. Manuel da Nóbrega participou ainda da fundação das três primeiras cidades da América Portuguesa: Salvador, São Paulo e Rio de Janeiro. O trabalho do sacerdote e seus companheiros na missionação dos povos indígenas motivou a criação das primeiras escolas no Brasil. Apoiando-se principalmente na conversão dos filhos dos selvagens, tinha como principal objetivo abolir costumes, como a antropofagia e a poligamia. Paulo Roberto Pereira pertence ao PEN Clube do Brasil, à Academia Carioca de Letras, à Academia Luso-Brasileira de Letras; à Academia de Letras da Bahia e ao Instituto Geográfico e Histórico da Bahia.

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